Linha de contorno

Linha de contorno, 2025, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, São Paulo.

Arapuca, 2020/25, pano de rede, corda elástica, cabo de aço, anzóis, pedra de mármore, abraçadeiras, clipes, ponteiras, parafusos e buchas, 385cm x 670cm x 1230cm.

Linha de contorno: tijolos e cinta de amarração, 2025, tijolos cerâmicos e cinta de amarração com catraca, 70cm x 70cm x 30cm.

Linha de contorno: rede e corda elástica, 2025, pano de rede, corda elástica, abraçadeiras, clipes, ponteiras, parafusos e buchas.

Como produzir tensão: vídeo-performance, 2022 / 2023, 6’15”, vídeo, loop, fotografia: Francisco Martins Fontes.

Linha de contorno: tijolos e fita elástica, 2025, tijolos cerâmicos, fita elástica, linha, parafusos e buchas, medidas variáveis.

Linha de contorno: tijolos e fita elástica, 2025, tijolos cerâmicos, fita elástica, linha, parafusos e buchas, medidas variáveis.

Arapuca (parede), 2025, pano de rede, corda elástica, tijolo cerâmico, abraçadeiras, clipes, ponteiras, parafusos e buchas, 385cm x 690cm x 30cm.

Linha de contorno: rede de pesca e bastidores, 2025, rede de pesca e bastidores, medidas variáveis.

Uma dentro da outra, 2023, latão e massa de modelar, medidas variáveis.

 

 

Fotografia Mauricio Froldi e BLOKO.

 

Abaixo: leia texto de Yuri Quevedo

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Linha de contorno

 

Yuri Quevedo

 

Pelo menos desde os anos 90, se tornou cada vez mais comum constatar que vivemos em um mundo atravessado por imagens, mediado por redes virtuais, no qual estruturas sólidas parecem se dissolver em relações líquidas. Está certo que a noção sobre esse estado de coisas é bem mais antiga, remontando ao século XIX, às críticas ao capitalismo, à revolução industrial e, mais adiante, à todas as considerações feitas sobre a cultura de massas com seu impacto sobre o comportamento e a visualidade coletiva. Mas a era da internet transformou aquilo que parecia ser a sensação de uma época em um modo de vida. 

Se há certo pessimismo progressista nessas constatações, é possível também enxergar algum comodismo próprio de um sujeito atordoado com o novo. É inegável que uma parte grande da conquista de direitos hoje tem a ver com a fluidez, ou maleabilidade, de estruturas antes mais rígidas como o corpo ou a história. Afinal, a transformação da vida em imagem – e imagens manipuláveis – garante uma plasticidade a contornos antes muito bem definidos. 

O trabalho de Marcia Pastore – artista constante desde os anos 90 – é a demonstração material dessa plasticidade contemporânea. Interessada no impacto da força sobre a forma, a artista equaciona os vetores de peso e tensão para atestar o óbvio: espaço, presença e materialidade não são unidades e não resultam em experiências universais.  

As Arapucas, interrompem o espaço moderno inaugurado pela perspectiva por meio de uma ocorrência insólita, a gravidade de um bloco cerâmico. Se os renascentistas estruturaram um campo no qual, a partir de um olho universal, o mundo pode ser ordenado segundo as leis da geometria, Marcia distorce esse esquema se valendo da gravidade. Nessa operação, a artista também incide sobre o cubo branco, separando da solidez da parede uma membrana quadriculada que materializa um novo espaço. Esse espaço virtual que estamos tão acostumados a mergulhar, avança para fora em direção a nós. O entre que agora está passível de ocupação, é gerado pelo peso do tijolo que nele reside. É um corpo cuja força e posição cria o próprio lugar. Pensando assim, a ameaça contida no título do trabalho não parece à toa. 

O tijolo volta a ser testado em outros trabalhos, quando a artista usa uma cinta para mantê-los juntos, empilhados e em equilíbrio. Agora Marcia inverte o vetor da força e o bloco que era o princípio gerador da Arapuca, é comprimido pelo abraço de uma linha de contorno, a ponto de perder sua característica seriada, racional. A presença que se afirmava antes – a ponto de criar o próprio espaço – se mostra frágil diante da nova investida, e perde a forma na tentativa de se acomodar à pressão.

O que faz Marcia, afinal, é nos mostrar que as linhas de contorno não são limites naturais da forma, muito menos inertes. Ao contrário, são forças determinantes que, quando aplicadas sobre um corpo, alteram sua estrutura ao passo que sofrem resistência de sua composição. Tomar consciência desse jogo de forças, de como ele exige negociações e força adaptações, talvez se aproxime a uma outra consciência, aquela nem sempre possível em um mundo atravessado por imagens: a consciência política. 

 

 

 

Abaixo: leia texto de Ricardo Resende

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Arapuca

texto escrito para a primeira edição de Arapuca, na exposição
Arapuca, 2020, Galeria Kogan Amaro, São Paulo.

Ricardo Resende

Há coerência em sua obra dos primeiros trabalhos aos mais recentes. Marcia Pastore, engendra formas escultóricas e instalativas dotadas de compreensibilidade e de autonomia próprias, como atos puros de invenção. A articidade, por sua vez, está na escolha dos materiais e articulações desses no espaço que lhe é dado. Trabalha com a fisicidade dos materiais, dos mecanismos, das forças energéticas, do peso, do equilíbrio, do obstáculo e das linhas visíveis e invisíveis resultantes dessas forças. O vazio do campo é preenchido por essas linhas e energias que cria, fazendo reviver a experiência do fruidor nas suas arapucas espaciais. É assim que executa a obra.

Essa execução é um tentar, um proceder e um planejar mental. É sua forma peculiar de pensar e fazer arte. Não esboça sobre uma folha de papel a ideia física. Essa fica no plano mental e é executada em tempo real no espaço. Pode dar certo como pode não dar. A artista vai para o campo com suas ideias e para executá-las debruça-se sobre os materiais e as articula, cria engrenagens, tensões e distensões espaciais. É um corpo a corpo que pode tornar-se um embate exaustivo, tamanha a fisicalidade, movimentos espaciais, peso dessas articulações e esforço físico desprendido nas ações. Os trabalhos tornam-se pacientes interrogações da matéria, é o que deixa entrever.

Pedras, pó de gesso, gesso endurecido, cabos, roldanas, materiais inusitados como a rede de pescar. Física, energia, linhas, formas e desformas, água, vidro, cabos, anzóis, grafite, metais, pesos de halterofilistas e assim por diante, em uma diversidade calculada dos materiais, elementos e forças que formam sua obra. Forças que desenham, claramente, o espaço. De alguma maneira, tenta evitar as evidências dos corpos.

Forças concêntricas, pendulares, de tensão e de equilíbrio ao buscar a estabilidade no vazio a ser preenchido por essas linhas de força. É sua forma de construção ao inventar desenhos espaciais que criam centros, perspectivas e preenchem todo o espaço expositivo.

As esculturas, se é que poderíamos chamar de esculturas pensando nos cânones dessa linguagem, na sua apresentação clássica e moderna, monolíticas, simulam forças sobre si mesmas. Pode ser um roldana, um pêndulo com uma pedra cortada toscamente. Uma pedra cavada da parede, uma rede de pesca prendida nas paredes da sala e esticada ao ponto de criar um desenho aéreo delicado nessa tensão exercida sobre a matéria esbranquiçada e translúcida. Um processo formativo da escultura de aproximações e retornos, de puxar e distender, de cruzar e tensionar até virarem armadilhas concretas e abstraídas de sentido, obrigando quem as observa a desviar da natureza dessas coisas no ambiente real, criado pela artista.

Não é escultura como monólito esculpido… Também não pensa a escultura como uma pintura, representando um corpo (humano, animal ou vegetal). São esculturas de superfícies, de movimento, de articulações, das engrenagens dos mecanismos, de organicidade controlada e das relações de corpos no espaço arquitetônico.

Equilíbrio e estabilização no espaço atravessados por linhas motrizes. O vazio do espaço da sala expositiva ou o espaço arquitetônico são preenchidos por essas forças concêntricas, pendulares e gravitacionais que formam linhas que desenham no espaço. Traços visíveis e traços invisíveis da relação entre os corpos e linhas que descrevem e preenchem pacientemente o espaço.

O vídeo da ação, as fotos still do vídeo são como imagens das ações gravadas no tempo. Gravuras que carimbam o espaço aéreo e a camada de gesso acumulada no chão. A cena montada vira paisagem cósmica no vídeo-ação. Imagens congeladas transformam–se em uma quase figuração de galáxia no simples gesto de jogar bolas coloridas e espirrar o pó o branco do gesso. Traz cor para a exposição e deixa a obra aberta para a incorporação do outro.

Os trabalhos são interrogações dos materiais e suas forças que evitam a figuração. Apenas índices abstratos da fisicalidade e do real e do irreal. Não há interpretação definitiva e exclusiva, não há também interpretação provisória e aproximativa. Não há narrativas.

É a pessoa que observa quem faz o acesso à obra, revelando a sua natureza e exprimindo a si mesma. Torna-se ao mesmo tempo, diríamos, a obra e o seu modo de ver a obra (Umberto Eco), nas articulações e desarticulações dos objetos e das linhas no espaço da exposição. A obra mostra-se como modo de pensar.