2002

gesso, vídeo

Centro Universitário MariAntonia, São Paulo

 

Leia texto de Afonso Luz

O corpo é a matéria da escultura. E é no corpo que sua experiência se realiza. A plasticidade daquilo que se põe no espaço, para mim espectador seu, configura um campo comum de atividade perceptiva, lugar entre este corpo meu e aquele de cuja órbita experimento a frequência. Frequentamos uma escultura como um outro corpo que sentimos junto ao nosso, à medida que caminhamos em torno dele, como se já o tocássemos. O poeta alemão Hine dizia desta atração incontrolável que as estátuas da antiguidade exerciam sobre os homens ser um misto de êxtase divino e paixão demoníaca: um encontro casual com uma Venus num passeio por ruinas de templos romanos punha o sujeito fora de si. Ainda hoje, não raro,  nos pegamos controlando um impulso que levaria a mão próxima à peça, mesmo naquelas em que a imagem dum corpo não se verifica imediatamente.

O poder desta arte que fala à imaginação de modo tão pleno se faz sentir nos trabalhos aqui expostos, à medida que estes atualizam, num agenciamento bem contemporâneo, a disciplina escultórica. As grandes peças em gesso modelado fazem ver corpos negativos. Uma série de gestos retidos em moldes se desdobra num cortejo de membros que vai desenhando a borda sinuosa desta lâmina retorcida. Um outro corpo surge, imenso, regenerando momentaneamente o inorgânico do partes extra partes. O erigir-se contra o chão resulta num arqueamento, algo problemático: este todo só se equilibra às custas dum retraimento. Uma precária interioridade se constrói e se desfaz quando seguimos a percorrê-la. De dentro pra fora tudo muda, este contínuo branco que nos acolhia sensualmente agora nos repele e somos devolvidos ao espaço comum para seguirmos nossa jornada em meio à incomunicabilidade de corpos fendidos. Algo no meio do caminho aconteceu, não sabemos o que é, só nos lembramos dum pequeno prazer.

 

Afonso Luz