dobros

2009 | 2010

aço, luz, som

Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro

 

Chapas de aço inoxidável de 6 m de altura, maiores que a distância entre o chão e o teto, ao se prenderem entre eles ganham fisionomia de “S”. E, cada uma, um “S” particular. 6 dessas chapas de 1,20 m de largura colocadas lado a lado, formam um muro que ocupa todo o espaço entre as paredes da sala e a divide em duas partes novas. Esses 2 novos espaços são incomunicáveis pelo corpo, mas se deixam entrever visualmente um pelo outro devido às aberturas decorrentes das deformações distintas de cada chapa.

As configurações das chapas repõem e transfiguram o espaço arquitetônico.

Duplicar, dobrar, tornar o espaço inicial uma multiplicidade de dobros, essa é a intenção do trabalho para que, por meio dos “dobros”, o espectador, no movimento ou repouso de seu corpo, experimente o novo espaço como lugar familiar, mas, em especial, estranho, bem formado, mas, sobretudo, disforme.

Alterações no espaço percebido provocam, então, alterações na percepção e, pelos desvios entre o habitual e o estranho, uma experiência do inusitado renovadora da percepção habitual.

 

Leia texto de Alberto Tassinari

Por quem os sinos dobram

Marcia Pastore busca sempre algo de fisionômico, embora muitas vezes só aludido, em suas esculturas.  Alusões que parecem ter sumido quando Marcia se dedicou a trabalhar com partes do corpo humano. Mas então as partes se confundem. Um joelho e um cotovelo têm lá seus parentescos. E por aí se vai.

São formas um tanto espantadas e espantadoras. E entre o sorriso e o leve susto também se percebe o quanto o corpo humano é aparentado ao dos animais. Mas não só isso. Também o estranho aí se enovela numa rara mistura de aspectos que dá o que pensar sobre os significados que tranquilamente atribui-se ao que somos. Entre sensuais e caricatos, entre serenos e assustadores, e entre belos e animalescos, em lugares não bem definidos, é que talvez nos façamos humanos.

Em “Dobros”, a poética de Marcia Pastore se repõe por inteiro. Mas aqui não são apenas as chapas de metal sinuosas que lembram nossas sinuosidades. Elas também nos refletem como que num trem fantasma. Vemos na obra, ao percorrê-la, o que víamos em suas obras anteriores, mas também na obra entramos e nela nos figuramos. E dos modos mais diversos. Contrapondo duplos (dobros), certo e avesso, claro e escuro, anteparos e frestas e até mesmo visão e audição, podemos nos medir, remedir, estranhar, rir, indagar, e assim sem fim, em meio a esses espelhos enormes em que os sons aludem agora a algo como um sino. E os sinos, à distância, também dobram, batendo daqui e dali, ecoando o espaço no espaço. Entre nascer e morrer, entre seus sons, tudo se passa. O que é óbvio, mas assusta. Sereno, mas risonho. Belo, mas estranho.

 

Alberto Tassinari

 

 

ouça o som ambiente da exposição: