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1993

ferro fundido e cera, fio de cobre, vaselina, breu e mercúrio

Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro

Leia texto de Rodrigo Naves

Feo, fuerte y formal*

As obras de Marcia Pastore têm a capacidade de articular uma grande nitidez formal – ou seja, a explicitação dos passos empregados na produção dos objetos – a uma espécie de frustação daquilo que o processo de construção das formas prometia. Há nelas uma clara discriminação dos materiais empregados, o modo de pô-los em contato não guarda mistérios, e no entanto o resultado desse fazer cristalino é uma espécie de reversão daquela promessa de ordenamento.

Assim: uma barra de ferro, muito arame enrolado e uma bola de vaselina a lhes fortalecer o contato. Seria difícil juntar três materiais diferentes de maneira mais estreita e com maior clareza. No entanto, eles parecem recusar a proximidade. A vaselina, por sua consistência, procura criar um termo comum entre os dois metais, transferindo-lhes um pouco de aderência e plasticidade. Em vão. O resultado é a formação de uma pelota em torno de uma haste, sem que um vínculo formal ou material unifique os elementos. Intimamente interligados e absolutamente exteriores uns aos outros, eles incomodam a percepção por essa esdrúxula combinação entre proximidade e repulsa.

Numa nova tentativa de reunir as coisas, a artista escava os volumes, criando no seu interior alguns sulcos que possam acolher outros materiais. Feitas de maneira meio rude – como que rasgadas do corpo das coisas –, essas reentrâncias propiciam um encontro visceral entre as substâncias. A feição orgânica dos cortes prepara os materiais para um contato ativo, em que se dê uma troca quase biológica entre eles. Mas novamente esse movimento se frustra. Justapostos, alheios uns aos outros, ferro, mercúrio, vaselina travam um diálogo contido.

Como nos apertos de mão não correspondidos, quando temos a impressão de tocar algo sem vida, os trabalhos de Marcia Pastore reúnem formalidade e indiferença. E nisso lembram muito o tipo de vida que levamos. Essas formas que não se cumprem – e que nascem de uma decisão e de uma disposição formal das mais rigorosas –, essas estranhas proximidades falam de um processo que experimentamos a todo momento, sempre que as promessas despertadas pelo convívio social deixam de se realizar. Aquilo que vislumbramos nas relações de solidariedade e de amizade não consegue desdobrar-se para o conjunto dos contatos sociais. Aqueles vínculos estreitos e generosos parecem ter que limitar-se a um círculo estreito, que tende a transformar a idéia de uma vida melhor em simples quimera. Por isso essas rudes justaposições são mais do que são, e transformam em tensão o que deveria ser apenas encosto.

Rodrigo Naves

* palavras da lápide do ator John Wayne.